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9 de outubro de 2012

space is only noise if you can see

sem massa nem volume constantes e portanto, com densidade variável ando por aí a ocupar intersticios diversos, sem cuidado, a construir novos mundos só meus e teus, ou nossos. mundos esses que rapidamente são destruídos. impossível manter qualquer tipo de estabilidade enquanto caminhamos na escuridão da sociedade de omissões, mentiras ou imprecisões. o piso é irregular: caímos, tropeçamos enquanto subimos, voltamos a cair. sim, verdade, todos os universos tendem para um qualquer tipo de equilíbrio e, no nosso caso, contribuímos deixando que a gravidade nos atire ao chão.
(mas, bem sabes, eu nunca pedi para nascer, muito menos para viver. e, no fundo, tu bem me entendes, tudo isto é uma merda.)
somos escravos do tempo cíclico; as semanas da rotina voltaram. estás bem porque não podes estar mal, nem sequer tens tempo para estar mal. acredita, está tudo bem. concentra-te, canaliza o pensamento para o concreto e abstrai-te de tudo o resto. re(encontrei-te), foda-se, voltou o estado de dormência...
e aqui estamos, perdidos, no mundo novo, a seguir o que é considerado ser normal, mas não propriamente o que é suposto ou necessário, porque bem, isso nem sequer existe. mas, afinal, porque nos estamos a sentir perdidos? isso talvez seja por não termos a consciência ou qualquer noção da grandeza do nosso caminho, por não sabermos verdadeiramente calcular a primitiva da nossa vida. e, se assim é, também não saberemos para o que tendemos. qual é a nossa origem? haverá no nosso caminho uma verdadeira assimptota que nos diga qual é o nosso fim? horizontal poder-nos-à transmitir resignação, passividade ou, por outro lado, vertical, indicadora de um crescendo que termina inevitavelmente na morte. e se de facto o nosso futuro pode ser expresso por uma função matemática? imagina, estaríamos perfeitamente aptos a conhecer os nossos limites e as nossas capacidades em determinado instante.
(sinto o teu suspiro junto às minhas veias do pescoço. sim, tens razão, eu não quero pensar mais, mas -)
acho que o problema maior é que nunca, nada, chega para ficar permanentemente ou, se por outro lado, as coisas apontam para isso, somos os primeiros a estragar tudo, seja o que for, por medo, mas vangloriamo-nos como se estivéssemos no controlo. idiotas. o problema está nas certezas e nas dúvidas. o problema está em tudo, achar em tudo está o problema, nem tudo achar o problema e em achar que tudo é problema. o que se viveu, o que não se viveu. pensar.
(tu insistes: já chega, por favor, anda comigo, vamos dormir. mas eu não me deixo levar por ti, és só a segunda voz que ecoa na minha cabeça, pela qual eu imploro realidade. não, ainda é cedo e as insónias voltaram.)
um dia fizeste-me acreditar em amor, em sobreposição (até mesmo que sabia o seu significado). dias mais tarde entendi que nada entendia, porque nunca o senti na pele, o calor por ele proporcionado (ou pelo menos como eu o edifico). acreditei então na indiferença. finalmente atribui a devida ênfase ao narcisismo, esse elemento dotado de uma imensa electronegatividade capaz de gerar todos os dipólos por ele pretendidos. ele nasce connosco, morre connosco. toda a ideia de dar é ridícula. não passa de uma ilusão criada por nós, para não nos sentirmos sós, enquanto andamos por aí a pairar, na nossa forma gasosa, estabelecendo frágeis ligações que quebram perante qualquer força resistente.
(e voltas a intervir: toma atenção, não acreditas em nada daquilo que estás a dizer. releio. merda, claro que não. sinto falta de tudo, só isso. e mais, nem todos somos feitos da mesma matéria, isso é tudo bullshit. nós sabemos disso, porque somos mais fracos. e neste momento tiras os óculos e olhas-me nos olhos como mais ninguém o faz, escorrem lágrimas no teu rosto e eu continuo: isto nunca irá passar, não é verdade? mexes os lábios sem emitir qualquer som, mas eu leio um não em toda a tua expressão facial. abraças-me.)
tenho saudades tuas.


20 de setembro de 2012

todos nós estamos (ou somos) de certa forma estragados. e, portanto, tu não eras excepção; precisavas de tempo e de espaço e eu nada mais seria capaz de fazer se não atender às tuas necessidades (é assim que deve ser). mas a merda de pôr em prática este tipo de mecanismos, mantendo o low-profile, é que pode facilmente não se atribuir o valor devido (o que acaba por acontecer). podendo chegar a ser entendido como falta de interesse. não, de todo. dei-te espaço, dei-te tempo, dei-te tudo e agora não há nada, ou talvez nunca tenha havido. saí da tua órbita e agora já não existem forças capazes de nos manter em qualquer tipo de interacção. aliás já não existe qualquer força a actuar no nosso campo, exceptuando o peso que nos faz ir ao chão, enquanto pairamos no vazio.
e na consciência da minha grande insanidade, pergunto-me se alguma vez terei atravessado as profundezas do teu pensamento. não, talvez, não sei. talvez tenha ficado apenas a nadar à superfície, talvez não tenha sequer ficado. pensando bem, é melhor assim: de que valeria atravessar se não fosse para ficar? mas não, isto nem sequer faz sentido. como poderei não ter entrado, se tu me atravessaste não só a mente, mas quase totalmente, com esses teus olhos cor de mar profundo; ou serão negros, como essa tua essência bestial?
nfjnwehfdnjskndkjsmfskldmfsvoudormir.

16 de julho de 2012

toda a valsa tem um fim



de mochila às costas, pelas ruas negras da cidade, eu vagueio sem destino. o olhar desconcentrado não deixa negar o caos constante, o brainstorming de conceitos e a tentativa de encaixar e decifrar todos os mindfucks. concretamente, as motivações que nos levam a não agir. does the body rule the mind or does the mind rule the body? i don't know, nem me parece que algum dia saberemos. sei que te quero, estou programada para sentir o teu perfume à tua passagem, para me deixar cegar por ele e, no entanto, os diálogos mentais não passam disso. todas as nossas conversas ou as músicas que dão ritmo às nossas manhãs, nunca sairão da minha cabeça, isto porque o medo está sempre lá, constantemente a provocar-nos com buscas infindáveis de causas-efeitos. desisto, foco-me nas palpitações eminentes no topo da nuca, até te encontrar perdido no meu horizonte. inconscientemente, acelero o passo, atravesso para o outro lado da rua. estou a seguir-te, já sinto as descargas de adrenalina a fluirem nas minhas veias. dobro a esquina e ali estás, parado. vens na minha direcção, levando-me a recuar até bater na parede.
- porque é que me estás a seguir? o que é que tu queres de mim?
começo a tremer e gaguejando respondo:
- isso depende.
- depende, mas depende de quê afinal? - interrompes-me e voltas a questionar.
- depende daquilo que tu queres de mim. - faço um esforço para te olhar nos olhos, mas vejo-me a desviá-los para o chão.
- do que eu quero de ti? porque é que haveria de querer algo de ti? eu não quero nada de ti, para além de que pares com isto. - a tua voz está cada vez mais ríspida, dando ênfase à tua exaltação crescente - sim, eu sei, eu sei muito bem o que tens andado a fazer ao longo destes meses. pensas que eu não sei que tudo o que aconteceu, os encontros e desencontros, não são meras coincidências ou acontecimentos casuais?
as tuas palavras são como pés de chumbo que pisam propositadamente os meus. é a hora, este é o momento, o timing exacto.
- pois não, até porque acredito que há coincidências que temos de ser nós a criá-las, - a tua expressão afirma claramente que não esperavas esta resposta. - e, no fundo, eu sei que gostas, tanto quanto eu, desta nossa valsa.
- ouve bem aquilo que estás a dizer, não faz sentido nenhum.
- não? então, explica-me, porque é que estás aqui a encostar-me a esta parede, porque é que os teus olhos contrariam as tuas palavras e chamam incessantemente por mim.
cheguei a ti, quebrei o teu suporte, a tua determinação desapareceu. sinto a tua respiração ofegante, tens de sair dali, viras as costas, mas eu agarro-te pelo braço e continuo:
- anda, admite que há desejos inexplicáveis, vontades externas a nós que nos fazem deixar a besta que há em nós percorrer os cantos mais sombrios e perversos das nossas mentes, aqueles que nem nós tínhamos consciência da sua existência. não acredito que não tenhas sonhado, a dormir e acordado, tal como eu. ou que mal feches os olhos não sintas as forças atractivas que trazem as tuas mãos para a minha fina cintura e que levam as minhas para os teus ombros fortes.
finalmente cedes, o teu pé esquerdo avança com o recuo do meu direito:
- olha bem à tua volta, olha para nós. achas mesmo que é possível?
consigo ouvir as tuas veias do pescoço latejantes, aos mesmo tempo que te aproximas e me envolves nos teus braços, num abraço mais intenso do que tudo, espero que saibas que ainda não te disse nada. começamos a caminhar, com a tua mão pousada no teu ombro, sem destino concreto.
- eu sei, eu percebo aquilo que tu queres dizer, mas será que devemos negar à priori os nossos instintos? se os seguirmos indiscriminadamente tornamo-nos autênticos animais, por outro lado, se os negarmos a todos, não passaremos de máquinas automatizadas e, no entanto, eles continuam no canto da nossa mente, sem nunca desaparecerem. tem de haver um equilíbrio, não te parece? tu és a pulsão primitiva à qual eu quero ceder verdadeiramente, o meu equilíbrio.
- pois, claro que percebes o que eu te digo. tens razão, mas ainda és jovem, a vida ainda te irá marcar muito. o que é que importa, para ti?
- eu sei lá, nunca soube descodificar muito bem o verdadeiro significado das coisas.
- refiro-me, neste momento, a nós. para ti, o que é que torna importante a relação de duas pessoas?
- entre duas pessoas, universalmente, não faço a mínima ideia, mas entre nós... é o teu silêncio, é o nosso jogo de olhares e sorrisos. é a nossa maneira única de comunicar, as subtilezas do dia a dia que a pouco e pouco me revelam a tua maneira de ser. ainda sinto em mim as reminiscências do estado em que fiquei no dia em que dei por ti a ouvir paranoid android ou a forma como o teu olhar penetrante me fez sentir transparente como nunca, a primeira vez que te vi. tudo isto levou a um crescendo incontrolável de intimidade que embala e dá ritmo à cumplicidade da nossa dança.
- e depois de tudo isso, o que é que nos resta?
- como assim?
- o que é que nos irá segurar quando tudo se tornar demasiado real?
- não sei, até porque, efectivamente, haverá alguma coisa suficientemente forte para nos segurar para sempre?
- tens razão.
- e o que devemos fazer, então?
- sabes, acho que uma das piores excentricidades da raça humana é a alegada necessidade de falar sobre tudo e nada, julgando estar assumidamente no controlo do que quer que seja. como se com as palavras transportasse algum tipo de luz que irá aclarar um qualquer futuro. como se de tudo soubesse, como se tudo o que diga seja digno de ser ouvido por outrem. há palavras que não devem ser proferidas de tão inúteis. pouca gente percebe a verdadeira magnitude do silêncio.
- e daí os passados meses.
- exactamente.
ao nosso ritmo lento, chegamos junto ao lago no parque da cidade, a relva intercalada com as ervas, está ainda húmida da última chuva que sobre ela caiu. sentas-te e eu pouso a minha cabeça sobre a tua perna, de modo a que os meus olhos cheguem ao fundo dos teus. continuas:
- passei noites e noites a sentir-te, estavas ali, mesmo ao meu lado, tenho plena noção disso - estamos em sintonia, penso. - lembro-me de ter o teu corpo sobre o meu, de sentir o pulsar do teu coração, próximo do meu peito; de acordar, a meio da noite, e ficar, enquanto olhava para ti, a tentar desvendar o teu intimo. sinto que te conheço como nunca conheci ninguém, sinto-te em mim.
- como eu te entendo. cruzaste vezes e vezes sem conta o meu pensamento, consciente e inconsciente. os fios que me puxam para ti são de uma resistência e força inimagináveis, sou incapaz de os controlar. e, bem, tudo o que eu faço é ceder, eu só queria poder-me deixar levar por ti. imaginei como seria a nossa vida a dois: seria simples, sei disso, dotada de um silêncio acolhedor e confortável, desligados de ambições e de lutas inúteis. as tardes chuvosas de domingo, de persianas fechadas, a percorrer todos os recantos dos nosso corpos frios.
- ao mesmo tempo que ouvíamos a discografia dos pink floyd. e não te esqueças da cerveja, a cerveja estaria sempre connosco! - soltas uma gargalhada e eu rio-me contigo.
fizeste-o com um propósito, tinha de ser feito. estávamos a dançar em terreno demasiado irregular. perdemo-nos a olhar para a crianças que correm à nossa volta, a tentar captar uma milésima da sua felicidade, até que eu volto a quebrar o silêncio:
- mas depois de tudo isto, explica-me, por favor, o porquê de estarmos a ter esta conversa se não irá mudar nada.
- não te sei explicar bem, mas por vezes os fios que nos unem formam nós que precisam de ser desfeitos, pode ser esse o caso. se calhar, desta vez, tudo isto precisava de ser dito, para que as forças não nos faltem e que, com a ausência delas, todos os fios se quebrem.
- eu sei que há coisas que só podem acontecer noutro tempo, noutra configuração, também sei que provavelmente esta é uma delas, mas e se tentássemos?
- e achas que o meu desejo não é esse? - beijas-me a testa enquanto me abraças - não iria resultar, eu sei que sabes isso.
- e é por situações como esta que nunca seremos tão felizes...
- como poderíamos vir a ser, eu sei, e, ao mesmo tempo, como toda a valsa tem um fim...
- também nunca cairemos tanto, como poderíamos, nunca chegaremos a conhecer o verdadeiro fundo do poço.
caímos num silêncio profundo, apenas ouvimos o balanço das árvores, e entretanto, está calor, demasiado calor, e a luminosidade cega. estamos os dois a tremer, estamos na mesma frequência. cedemos. vamos para tua casa, depressa. atiramos tudo para cima do sofá e eu corro na tua direcção; agarras-me, fico no teu colo e abraço-te, enquanto me tentas morder a orelha direita. segues para o quarto, deitas-me na cama e fechas todas as persianas. o quarto está tingido de negro e, no entanto, persigo o teu espesso vulto com o olhar; vagueias pelo quarto até chegares a mim. a minha mão toca a tua pele nua e suada, apreendendo todas as tuas cicatrizes. os teus olhos, enterrados no alicerce das minhas costas, trespassam qualquer vestigio de carne, preenchendo todos os vazios. os nossos corpos estremecem, as leis da física quebram-se: já não sei que mãos são as minhas, que olhos são os teus. a matéria que forma cada um de nós sobrepõe-se, ocupamos agora o mesmo espaço: vejo com os teus olhos, sentes através das minhas mãos. nunca mais haverá um eu sem ti, nem um tu sem mim. fazemos inevitavelmente parte um do outro. adormecemos envoltos um no outro. estamos ainda mais fundo, mais dentro um do outro, estamos do outro lado, numa dimensão paralela dotada de uma densidade extrema. os nossos corpos, vazios e nus, no centro, no olho de um furacão formado pela matéria que compõe as nossas mentes dementes. estas que nunca conheceram a estabilidade, a não ser a terrena proporcionada pela transposição dos nossos corpos com a gravidade. mas isso não interessa, e ali estamos nós, corpo e alma, separados e misturados. a inalcançavel unicidade mental que procuramos enquanto individualidade é agora encontrada na união das nossas almas, da nossa matéria sem-forma. é aqui, na separação do eu, na união dos nós que está o nosso eu verdadeiro, maximizado. como poderia eu encontrar-me sem te ter em mim?
acordo, passadas algumas horas, com a chuva fria a cair-me sobre a cara. estou de novo junto ao lago e é como se nada se tivesse passado, não fossem as tuas unhas cravadas nas minhas costas e eu não acreditaria. a mensagem é clara: esta foi a única vez. vai tudo voltar ao mesmo e, no entanto, nada será como antes. volto para casa com uma sensação de leveza insustentável, capturei a tua milionésima parte, mas, agora, apenas me faz pairar, pois ela não é realmente minha.
sigo para casa acompanhada pela escuridão, deito-me na cama e deixo-me cair na dormência da noite. o impulso nervoso começa a fluir, quase mecanicamente, mecanismos de auto-defesa: nada dura para sempre. o melhor a fazer é não processar nada e guardar.
o fim-de-semana chega ao fim e eu continuo dormente. segunda-feira, logo pela manhã, decido ir ao teu encontro, em vão, porque não estás. tento encaminhar o dia da melhor maneira, rodeio-me de gente para renegar a tua falta, de novo, em vão. resolvo, por fim, ir embora. estava eu no autocarro das 18h10min a dirigir-me para casa, perdida a observar tudo e nada através do vidro, quando, na próxima paragem, lá estavas tu sentado no nosso ponto de encontro. levantas-te apressado e fazes sinal ao motorista para parar. não podia acreditar, mas, imediatamente, percebi o que se estava a passar. pagas o bilhete e percorres os rostos de todos os passageiros, avanças até ao fundo e sentas-te ao meu lado. olho para ti, sorris e eu sussurro-te ao ouvido: "nunca voltes ao lugar, onde já foste feliz, por muito que o coração diga, não faças o que ele diz. são as regras da sensatez, vais sair a dizer que desta é de vez. só mais uma vez."





22 de junho de 2012

anda, é agora, este é o momento pelo qual julgas sempre ter esperado. decide-te. tens de fazer alguma coisa com a tua vida e sair do limbo que tu autonomamente criaste. achavas que ia ser fácil? dezoito anos passaram e sempre soubeste que a justiça é apenas uma ilusão e que o falhanço, esse sim, é bem real. fecha os olhos, sente-o. acorda, renasce. aprende que a vida não é feita de meios-momentos, meios-objectivos ou meias-conquistas. ou consegues tudo aquilo que anseias ou então não consegues nada. porque a vida é um todo: ou é boa ou má. esquece o grande plano ou o pequeno porque há só um. sente a intima desilusão provocada pela tua maneira de ver as coisas, dos objectivos por ti impostos, das inúteis expectativas. tentaste, esforçaste-te? não foi o suficiente, não chegou; não mereces nada do que tens, estás a ter aquilo que mereces. esquece tudo. achas que desta vez consegues fazer algo que realmente desejas? então anda, pega na tesoura e corta tudo, todos os fios que ainda te mantêm em suspenso. desliga-te de tudo: queima os papéis, apaga as mensagens, atira o computador ao chão. está de volta, não está? o vazio que tanto tentas preencher, ele não está em nada cheio. atenta para o facto: o teu corpo é todo ele formado por ínfimas partículas, átomos, que se intersectam com o vazio. e, bem, toda a gente sabe que o que quer que seja que tentes intersectar com o vazio, continua a ser vazio. mas pronto, aprende a viver com ele, no fundo, é e será a única coisa que te acompanha para todo o lado. não dizes nada? pois, também as palavras te escaparam e tudo aquilo que dizes perdeu à priori todo o significado. é por isso que afastas tudo aquilo que respira de ti, é por isso que nunca sentirás o calor de outro corpo a irradiar o teu. na verdade, és só mais um mísero ser no meio de tantos outros a tentar sobreviver sem saber porquê ou de quê, mas ao menos isso tu já sabes. e bem, mais nada te digo porque, contigo, nem vale a pena.

8 de maio de 2012

"...não vais morrer sem provar a maravilha de foder com amor."

eram apenas 17h30min, mas o dia invariavelmente já se aproximava do fim. abro a porta e vou para fora, parecia já noite cerrada pelas nuvens negras que se formavam no horizonte. fitei-as com o olhar e puxei o fecho do casaco até cima, na tentativa vã de superar o frio, respirei fundo, e comecei a caminhar. algumas dezenas de metros à frente começaram a cair algumas gotas, mas depressa progrediram para uma chuva torrencial. não tinha chapéu, não havia local algum onde me abrigar, continuei como se não fizesse caso. foi então que tu apareceste; encostaste o carro à berma, abriste a porta do lado direito e por um grito abafado pelo temporal percebi que me estavas a chamar. fui na tua direcção e entrei no carro.
- que azar ter começado a chover, logo agora - disseste.
- tens razão, ainda bem que apareceste - respondi numa espécie de agradecimento.
- diz-me, para onde vais? eu levo-te.
«boa pergunta», pensei. para onde é que eu ia? agora com a pergunta formulada, por mais que desse voltas à cabeça, apercebi-me que não tinha resposta para ela.
- não sei bem.
- não sabes? como não sabes?
- não sei. a verdade é que chega esta hora do dia e nunca sei para onde ir, porque não tenho para onde ir. não há lugar algum em que esteja alguém à minha espera ou a precisar de mim. - continuei a explicar, ainda que hesitante. não sabia se entenderias tudo aquilo que eu te estava a tentar transmitir ou, por outro lado, fosse excessiva explicação para quem mal conhecia. - todos os dias, a esta mesma hora, faço um trajecto rotineiro, tentando-me convencer a acreditar num propósito, mas ele não existe. o mais provável é acabar num café, sozinha, a ler enquanto desespero por encher os meus pulmões de fumo.
- como se estivesses à procura de algo que nunca encontras? - perguntaste em jeito de resposta.
assenti com a cabeça e, no momento seguinte, o silêncio apoderou-se do interior do veículo: não de uma maneira ríspida e pesada, mas sim de uma forma inacreditavelmente leve que se moldava e acolhia tudo aquilo que ambos estávamos a sentir. por esta altura, guiavas pelas ruas da cidade sem qualquer destino, estou quase certa que passámos por algumas pessoas mais do que uma vez, mas serviu o intento de prolongar a nossa conversa. de súbito, alongaste os braços e endireitaste as costas, deslizaste as mãos com agilidade sobre o volante, fazendo o carro curvar à direita. fechei os olhos, deixei-me levar por ti, sabendo apenas que nos afastávamos do centro.
alguns minutos depois, não sei ao certo, paraste o carro e anunciaste:
- chegámos.
«chegámos? chegámos onde?» foi a pergunta que me surgiu interiormente. abri os olhos e, tal como tu, contemplei o local que nos envolvia, dotado de uma calma e beleza características, capazes de, ainda que por breves instantes, sugar qualquer tristeza. por fim, quebras o silêncio:
- observa bem. o rio, como a força das suas águas conseguem, a pouco e pouco, quebrar as enormes rochas em milhares de pequenos pedaços. vê como as árvores são velhas, mas também como as suas folhas se mantêm verdes e as sua raízes são fortes, apesar de todas as marcas do tempo. a luz, como a sua energia, passados tantos anos, ainda atravessa por entre todas as folhas até chegar aos nossos olhos. e o solo, se não fosse ele, se o chão que pisamos não fosse negro e sujo, nunca nada seria tão harmonioso e distinto.
pensei dizer alguma coisa, mas nada me ocorreu, fiquei ali apenas a absorver tudo aquilo que dizias.
- bem, o que eu te estou a tentar dizer é que também eu me sinto perdido, mas,- nisto fizeste uma pausa, enquanto te tentavas convencer a ti mesmo - mas temos de acreditar. acreditar que o tempo e a persistência nos revelarão um propósito e, quem sabe, virá alguém ajudar-nos a encontrá-lo. até lá temos de ir resistindo, na verdade, é também a dor que nos possibilita a sensação de felicidade ou bem-estar; é tudo uma questão de relatividade, não te parece?
- sim, acho que sim.
abri a porta do carro, fui até lá fora e desci o caminho que acaba junto ao rio. precisava de sentir aquela água na  pele, descalçei-me e molhei o pé direito; imediatamente senti uma dor aguda que se entranhou no lúmen dos meus ossos, a água estava gelada. tirei o pé de dentro de água. olhei para cima e vi-te, de pé, no enorme granito em frente do carro. constatei nos teus olhos: sentiste a minha dor. voltámos para dentro do carro. desta vez, fiz eu as perguntas:
- sabes o que é o amor? achas que já o sentiste?
- não sei.
- e porquê?
- não sei, talvez por ser algo demasiado abstracto.
- exactamente. felicidade. amor. não sei o que são, mas foda-se, ou sou eu que não estou calibrada para o sentir verdadeiramente ou então vejo-os constantemente a ser confundidos e banalizados. sabes, às vezes sinto-me como uma ilha qualquer, sem nenhuma ligação possível, onde, o que quer que tentes semear, não irá sequer nascer, pois está já condenado a morrer. não, eu não sei o que é amar ou ser amada. duvido mesmo que alguma vez saberei, mas se calhar está destinado a ser assim. - fiz uma pausa e tu continuaste sem dizer nada - eu sei o que é sentir inexplicavelmente. sim, sei o que é desejar alguém incontrolavelmente, com todas as tuas forças, de tal maneira que todo o teu corpo estremece e os teus sinais vitais se alteram só de pensar numa determinada pessoa, uma pessoa que se tornou como que um prolongamento de ti. haver uma empatia tal que se é capaz de querer para ela tudo o que queres para ti, acolher em ti todas as suas paranóias e vontades. sabes do que falo?
- melhor do que possas imaginar.
- há semanas que tento decifrar as trocas de olhares, mas para quê? será que devo saber, será que quero saber? a verdade é que sou, pela primeira vez, capaz de sentir uma intimidade verdadeiramente intensa. sim, contigo, ainda que nem te conheça, mas será isso importante, visto que nunca chegamos a conhecer alguém realmente? o certo é que basta estar por baixo do mesmo tecto que tu para me sentir segura, como se tivéssemos combinado estar ali para me protegeres e eu a ti. quando te vais embora, tudo perde o sentido, fico totalmente perdida. só penso em ir atrás de ti, mas contenho-me e, já de madrugada, adormeço na esperança de que apareças nos meus sonhos.
neste momento, não disse mais nada, não porque não tivesse mais nada a dizer, simplesmente, já não era capaz de articular as palavras que ressoavam na minha cabeça. os teus olhos continuavam cravados em mim, enquanto eu olhava em frente a observar a chuva a cair. senti descargas eléctricas que me percorriam da cabeça aos pés, ao mesmo tempo que perdia qualquer conteúdo que existisse em mim. do meu olho direito caiu uma lágrima e imediatamente fechei os olhos. tinha acabado de perder toda a minha densidade, sentia-me vazia, completamente entregue a ti; podia morrer ali, desde que fosse ao teu lado. de seguida, num toque electrizante, puxaste-me pelo queixo, a tua cara moveu-se em direcção à minha, pousaste os teus lábios nos meus, trazendo-me de volta à realidade. deixei de ser uma ilha. abraçaste-me e ali ficámos, num tempo indeterminado.

1 de maio de 2012

muss es sein?



«todas essas interrogações que questionam o amor, que o medem, o perscrutam, o inspeccionam, não se arriscarão a matá-lo na casca? se somos incapazes de amar, talvez seja por desejarmos ser amados, ou seja, querermos alguma coisa do outro (o seu amor), em vez de chegarmos junto dele sem reivindicações e não querermos senão a sua simples presença.»

descer as escadas sem a tua presença não tem significado. o teu lugar permanece bem definido e, no entanto, sinto-te a diluir com a chuva. na verdade, no teu lugar não há nada senão o vazio provocado pela tua ausência (que só se justifica ser assim chamado pelo facto de estares lá habitualmente); à minha passagem não sinto o teu cheiro intenso, não imagino os teus olhos cravados em mim, não ouço a música que tu ouves, nem sequer faz sentido tentar desvendar os teus pensamentos ou, por outro lado, tentar forçar os meus a entrar na tua mente, através do olhar.
o dia passa, chega a minha/nossa hora. algo dentro de mim me sugere fazer o meu/nosso 'caminho do costume', caminho esse que já não piso há semanas, e foi assim que o dia dois voltou a ser dia zero: vejo-te de relance e todo o meu corpo é percorrido por uma descarga eléctrica - afinal não fugiste - continuo a caminhar. certo, até aqui nada mais do que a vontade de te ter presente. à medida que me afasto surgem outro pensamentos: não posso, no entanto, negar a vontade crescente que te levantes agora mesmo do sítio onde estás e venhas atrás de mim, me persigas velozmente, me agarres pelo braço e me guies para ti. sim, esta vontade é real. ao mesmo tempo observo cuidadosa e estranhamente tudo o que me envolve, ainda que esteja na verdade a olhar bem para dentro, para as profundezas do meu ser, numa tentativa de compreender: serei, então, incapaz de amar? na minha cabeça forma-se, por instantes, um clarão, apagando todas as reflexões. talvez sim, talvez não.

«desde que te amo, o mundo inteiro te pertence. por isso, nunca cheguei a dar-te nada. apenas devolvi. não espero retribuição. esta mensagem, contudo, pede resposta. à velha maneira: se gostas de mim, se me correspondes, dobra o canto desta carta e devolve-me amanhã.»

29 de abril de 2012

enquanto houver ventos e mares, a gente vai continuar

e amanhã será um novo dia e, no entanto, tão semelhante ao de hoje, demasiadamente semelhante. a incerteza. a incerteza, essa puta que nunca me abandona e que todos os dias me faz desejar nem sequer acordar (para o dito novo dia). mas porquê? porque é que estás sempre aqui, presente, naquele canto da minha mente que está sempre a processar, tudo e nada, sem nunca parar. o que é certo é que a natureza desta incerteza é, também por si, incerta. mas bem, na generalidade, já me habituei a lidar com ela. de uma forma ou de outra, chega a uma altura em que há que decidir. apesar de ser sempre difícil, a pouco e pouco, é exequível. o problema está no tempo, esse que nunca pára. penso e repenso, tomo uma decisão. chega a hora e os argumentos, os prós e os contras são todos demasiado falíveis para continuar em frente, mas, mais uma vez, o tempo não pára. lá voltam as velhas crises, momento de colapso. respirar fica ainda mais difícil, os olhos só conseguem fitar o chão, caminhar incomoda por não haver um destino final (exceptuando a morte, mas essa chega mesmo que se pare).
entretanto, cada discussão puxa-me mais e mais para baixo; e os propósitos que me imponho para que tente encarar o novo dia como um dia diferente tornam-se totalmente insignificantes. a apatia e o nada fazem pressão para entrar e caio num sono profundo. do meio desse nada chegam até mim flashes e algumas vozes que suavemente me tentam trazer de volta ao mundo real, mas isso não chega. tem de ser à bruta: preciso que me berrem aos ouvidos, de levar chapadas na cara até sentir calor. ainda quase às escuras,  olho à minha volta e distingo algumas sombras pintadas no chão, mas ao olhar para cima os corpos das pessoas que provocavam tal fenómeno já desapareceram. fecho os olhos com força e volto a abrir. vá, calma. pensa. pensa que amanhã pode não ser muito diferente, mas o milésimo de diferença a que cada dia se soma outro milésimo será mais significativo dentro de dias, semanas. aliás, sabes bem que dentro de meses haverá uma quebra total, nessa altura, vais desesperar pela semelhança. renasço. mergulho no gelo, num banho de água fria. 
o corpo está ainda dormente e consigo aguentar a dor. as reminiscências da vontade estão a fluir. preciso de mudar alguma coisa, preciso de uma nova perspectiva ao acordar. chego ao quarto, rodo a cama 180º e encosto à parede oposta. é um começo. deito-me e estranho a sensação, mas a vontade de acordar ressurge camuflada pela ansiedade. adormeço. passadas algumas horas, acordo. observo a parede em frente. é um novo dia, vamos a ele. de repente, a porta, que agora se encontra do meu lado direito, abre-se lentamente e ouço: "o que é que fizeste? não gosto nada de ver a cama aqui, quero que a ponhas onde estava". e no meu cérebro desencadeia-se a luta pensar/falar. limito-me a pensar. é só uma cama, mas não deixa de ser uma boa metáfora. afinal de contas, a resistência está lá sempre à mudança e à diferença. o legado de impedir as minhas verdadeiras perspectivas e crenças, o meu verdadeiro eu transparecer mantém-se, continuam a querer roubar e matar pedaços do meu ser. por fim, levanto-me, em silêncio, e sigo com a minha rotina. estou já a olhar para ti, enquanto tomo o meu café, quando os pensamentos voltam ao plano principal. o que é que me impede de, neste preciso momento, chegar ao pé de ti e dizer-te que és a força motriz dos meus dias de semana? claro que já sei a resposta. é o medo. o medo e a dor de ter de errar. essa sensação, também percursora nos meus dias, de controlo, de não exceder o limite pelas eventuais consequências. porque caralho me deverei negar a ser feliz? não encontro resposta. fico sem forças.
é já em casa que me deito a olhar para o tecto. mas quem é que estou a tentar convencer? porque é que continuo a fazer planos? não, nada vai ser como eu quero. só conseguimos ter partes. não vale a pena pensar que daqui a uns meses uma eventual quebra me irá libertar porque, no fundo, não há como fugir ao campo de concentração que é a nossa vida. nascemos e morreremos, na merda e como merda. 

12 de abril de 2012




encosto-me para trás, o chão está frio. na janela escorre água e o céu está cinzento escuro. concentro-me no canto do tecto e confirmo: estou a sonhar. há semanas que mal durmo mas, ao mesmo tempo, sinto-me constantemente a viajar, em transe. fecho os olhos. revejo a sucessão de imagens recorrente: numa pequena fracção de segundo, o teu corpo está já sobre o meu. sinto o teu cheiro, mais intenso do que nunca, e eu nada faço por resistir. as minhas mãos levantam-se e tocam a tua cara, como pedaços de metal dotados de magnetismo. estamos os dois, completamente sozinhos, mergulhados numa escuridão devastadora e, no entanto, reconheço que já não somos nós, originais, ali. somos desejo-cru, libertos de qualquer preconceito, seres puramente irracionais. num estalar de dedos, por entre os nossos gritos, perfuras-me com um faca no estômago e desvaneces no meio das trevas. os meus nervos concentram-se naquele lugar e, por entre todas as sinapses, esforçam-se por informar o meu cérebro o que sentir. sinto uma intensidade crescente, mas não sei distinguir: dor ou prazer.
por fim, acordo, tenho falta de ar. fecho os olhos e tento acalmar-me. na minha cabeça, flashbacks, repetem-se, vezes e vezes sem conta, sinto a textura da tua pele, a profundidade do teu olhar e o vermelho vivo tinge a minha retina. de alguma forma, esta estranha sensação no meu baixo ventre, tornou-se realidade, sinto-a neste momento. marcaste-me. a verdade é que onde quer que esteja sinto a tua presença, como uma cicatriz, que fica para sempre, para me indicar que és tu a única direcção e eu aceito-a, sem questionar.
reabro os olhos, vejo as partículas que compõem o ar em movimentos precisos e colisões aleatórias: continuo a sonhar.

10 de abril de 2012

reflexões difusas de lugares distantes



de Londres.
Londres. fisicamente, tenho tudo guardado numa das muitas caixas de sapatilhas arrumadas cuidadosamente na parte de cima do meu roupeiro. no entanto, não consigo sequer pensar que o que está lá dentro ou mesmo as centenas de fotos tiradas são capazes de reflectir o que quer que seja sobre esta viagem. passou quase um ano, mas a verdade é que não é possível enquadrá-la num tempo exacto. Londres é uma miragem, num tempo paralelo, que me acompanha diariamente, como uma recordação incompleta. uma experiência boa, má; fascinante, concreta e abstractamente. Londres não foi real, mas sentimo-lo em nós, como uma espécie de cicatriz que nos marcou para sempre, pela intensidade dos dias por lá passados, momentos sem tempo nem lugar definidos. deixei lá parte de mim, em conjunto com uma parte de todos vocês, em contrapartida, aquela cidade deu-nos uma parte dela também. um dia, espero que estas partes se voltem a unir e, aí, talvez esta viagem se complete, ou pelo contrário, nos faça desejar outro e outro regresso, quem sabe, não ficar por lá?
de sonhar.
deitada no chão, a escuridão e os arrepios preenchem o vazio que há em mim e o meu corpo responde com reflexos semelhantes a espasmos. sinto-me a ressacar. preciso de te olhar nos olhos, de te injectar nas minhas veias e sentir-te percorrer o meu corpo. entre a distorção, caio num sono profundo que traz o meu desejo com ele: estás ali, ao meu lado, já te consigo sentir, outra vez.
das coincidências.
andas a meter-te em caminhos perigosos. achas mesmo que podes andar aí a semear coincidências nas cabeças alheias, quando és tu que as tentas criar? pensas que estás em controlo de alguma coisa? ninguém está na posição de o fazer sem sofrer, logo de seguida, as duras consequências.
da familia.
cada vez sinto que a família não passa de uma obrigação, de um acréscimo de responsabilidades. porque chegamos aqui e dizem-nos "toma lá, agora aguenta aí, estás preso a essas pessoas para o resto da tua vida". estar-se preso tem benefícios, os básicos, mas depois há o outro nível em que não se é compatível, quando as opiniões e maneiras de ser começam a divergir. porque quando se decide ir viver com alguém, que achamos ser a pessoa certa, há grandes probabilidades de estarmos errados, mas no caso da família, não se escolhe, porque raio é que vai correr bem? não vai, claro que não.
das realidades alternativas e das eventuais concretizações.
há semanas que vivo completamente atravessada entre duas realidades. entre uma realidade concreta que serve apenas para abrir portas à outra realidade alternativa. basicamente, uma base real suporta concepções interiores. há uma pergunta que permanece sem resposta: perante a possibilidade, seria ou não preferível a concretização, como uma fusão total de ambas?
da música e dos livros.
assustadoramente fascinante a convergência do que se ouve e se lê com a vida ou, como se tudo estivesse em sincronia num mesmo plano temporal e espacial. a certa altura já não sei se vivo o que leio/ouço ou leio/ouço o que vivo.
do ciclo de quedas.
quando, de um momento para o outro, deixamos de ter alguma coisa a que estávamos terrivelmente habituados a ter, cai-se. arranja-se todos e mais alguns mecanismos de sobrevivência, criam-se novos hábitos, arranja-se maneira de viver, mesmo abdicando de tudo. certo dia, tudo isso volta, sabemos que é momentâneo e que iremos voltar a perder, mas lá voltamos a dar tudo e voltamos a cair e a cair, vezes e vezes sem conta. e, é por isto, que hoje de manhã, o meu corpo parecia chumbado à cama.
da apatia.
"living by yourself and to yourself is like non-existing", true. sentir que apenas se está de visita na própria vida, como se não fosse nossa. parece que existe demasiado controlo. vai daí, não é necessariamente mau. já alguma vez te tornaste invisível? eu já.
de hoje ao descer a rua.
passei, o dia todo, com falta de ar. ao descer a rua do costume houve uma luta que ainda continua. a minha mente tenta a todo o custo negar, mas o desejo grita e implora que não pares. agora mesmo, com mais força, vem. pede-te que assumas o controlo de uma vez por todas. sinto-me atordoada e tudo à minha volta parece, ao mesmo tempo, estranho e familiar. apercebo-me de que já não estou só. em cada inalação, sinto a tua vontade cravada no meu ser, não estou em controlo. nisto, percorro todos os sítios que me fazem sentir-te por perto, sempre na esperança vã de sentir unicidade. we're just brutes, hooting and howling. "não me perguntes porquê mas sinto a necessidade incontrolável de te ter por perto, talvez ande a viver demasiado numa realidade que não esta. just say the word and i'll do as you say."


e a tudo isto se juntam todos os instintos animalescos que me fazem perder o norte e irracionalmente pedir por mais e mais, sem sequer pensar duas vezes. processar, só depois, quando se volta ao poço.



2 de abril de 2012

um dia voltarei às memórias

nas ruas negras desta cidade eu vagueio, sozinha. os meus poros dilatam com o pesar do sol e a pressão intracraniana está bem para lá dos limites. há uma vontade constante de te encontrar a cada esquina, sinto a adrenalina a fluir em cada mililitro do meu sangue. percorro as travessas num trajecto rotineiro até à esplanada no costume. corre uma brisa de ar fresco e, no entanto, eu mal consigo respirar. pego no romance que estou a ler, mas depressa me perco nas entre-linhas. fecho os olhos, mergulho na escuridão. à minha volta, o tempo está parado. em mim, consigo sentir o movimento da mais ínfima molécula que constitui o meu organismo, mesmo o subtil flipflop das membranas que individualizam cada uma das minhas células. reabro os olhos, as cores são demasiado vivas e o barulho incomoda. ao mesmo tempo, pressinto uma dor aguda que me sobe pela perna, movimento reflexo: mudo de posição e respiro fundo. olho em meu redor e concentro-me nas memórias. (...) 
entretanto, está a ficar tarde, faço por me levantar, mas o corpo não me obedece. esforço-me e alterno, um pé atrás do outro, como se nunca o tivesse feito antes. tenho a sensação invulgar de estar a ser observada e, ao percorrer com os olhos o que há ao meu redor, estranhamente percepciono que nada reconheço: a paisagem mudou, já não existe o fascínio de outrora e as pessoas, as pessoas não parecem ter metade da densidade e os seus rostos, sem expressão, dotados de uma artificialidade quase anti-natural. cria-se uma impressão de nevoeiro, uma espécie de poeira cósmica, apresso-me para sair dali, mas na verdade nem sei para onde ir. decido ir para casa. encontro a porta aberta, tranco-a, mas nem sequer me questiono. subo as escadas, dispo-me e deito-me. dou voltas à cabeça, tento controlar os pensamentos, mas depressa sou assaltada por um sono que arranca a minha consciência e perco as forças. sou sugada para as profundezas de um sono sem fim.
de manhã, quando acordo, dou conta de que a porta permanecera aberta durante toda a noite. foi então que caí em mim: a porta está inclinada, por muito que a tente fechar, a gravidade encarrega-se de a voltar a abrir. da minha parte, resta dar por mim a sair por ela, vezes e vezes sem conta, atirando-me, invariavelmente, para o, já intimo, buraco negro.

30 de março de 2012

passover



wondering how it is so simple to fall deep into the unknown, how the darkness swallows you ending up on the bottom of a well in the middle of nowhere. you can't get out of there, even if you could, you wouldn't know where to go. you're stuck inside and yet you still continue to dig down, as if you were going to find a way there.
but now, i don't care, i'm already here and i can see it in your eyes. it's hidden, underneath my own reflection, curiosity.  you may have noticed and yes, the dark passenger is always there, staring at you throughout my hazel iris, always prepared to mess up your head and make you play along. calm down, i may be stalking you, but i'd never hurt you.

28 de março de 2012

reality 3.0


the heart has reasons reason does not understand. this sucks you know, not having you around. sometimes it's quite difficult and i feel like bursting, as if i want to rip myself apart into a million pieces so i can be everywhere. but then there is a light that never goes out, staring at you to make sure you keep on track. as you flip the corner, there it is: just what you need. that thrill on the back of your spine that makes you keep going. something so strong that makes you want to change, makes you wish again. you fall in the world of dreams which you thought you'd lost a long time ago. it keeps you awake at night. although it all happens inside your head it makes you get the strength to apprehend everything again, the words gain sense. that is just how powerful the human mind can be, do you know the feeling?
in this case, it's you, it's all about you. you know, i have always looked at you differently because in a way you are different, i think. you have always been this charming man that pulls me to him, even without trying or noticing. there's just something about you. some kind of magnet that attracts me to you. the look on your eyes, the way you walk. it always makes me wonder. you're a mystery to me.
last night i couldn't sleep thinking about you. how much i want to know you. i pictured how it would be to have you, to be yours. we would have our own universe distinguishing us. it would only be ours', unique. i imagined us: me hearing you exhale on the back of my ear, feeling your touch as your fingers walk slowly through the notches in my spine. you, in a crescendo, as i lay my skin on yours, your heart screaming to get out, while i slowly kiss you down the neck and push your bones against mine. i can feel you close to me, as you get harder and harder. rapidly, we reach out infinite pleasure in some kind of climax, you in me. then we both recover our breath as we fall asleep in each others' arms. i also thought about how much i'd like to have the guts to walk towards you and say: you know, this may sound creepy, but a few nights ago i dreamed of you. it was really intense, i could probably say that it was the highlight of my week. Some hours later, after a vortex of thoughts and feelings way beyond reality, between all the tremors, chills and sweats, outside, the sun was rising, claiming to be a new day. as far as i was concerned it was still the same one.
it didn't took long to see you again, by that time when our eyes crossed, it wasn't as usual. i instantly felt a wish for last night to become true, an urgent desire to freeze that moment so i could proceed staring at you, as if you were irretrievably mine. in a second, it all vanished but i could hear myself breathing faster. isn't it real, the fact that, last night i was wishing to have you by my side, that i had this huge thirst for you?
fuck, i must be loosing it.

15 de março de 2012

take me somewhere nice, i want to see it falling


outside is about to rain and i seem to hear you whispering my name, calling me. i focus so i can hear you clearly, i try really hard so i can hear what you have to say to me, to figure out where does your voice comes from. my effort isn't good enough. you know, for now, you're like a projection of myself. in you, i see what i want you see and your actions reflect and intent what i want them to. you see, our mind has a desperate need to give sense to everything, it creates connections, motives and theories to define what's around us. imagine you run into someone you really have been thinking about a lot somewhere you don't expect to. but that person is there right in front of you at the distance of a single look. it's like a new piece of a puzzle you have to place, give some meaning. you raise your head and your eyes meet (there you were). you can actually feel some kind of heart attack. and although you know that all of these thoughts are highly probable to never leave your imagination, your mind, they insinuate to be plain real. inside, you know what you felt/feel and how intense it can be. even if your head's assumptions don't fit in the real world, you don't care because you are not in control. silently, you wish for it to be possible, even if it means to create your own world and again, only inside your skull. 
but, well, it hasn't started raining yet and it's time for you to go. "see you tomorrow", i sigh, as you vanish into the corner of my eyes. the sky is now darker than ever and i walk home desiring your whisper as i pull the string that ties me to you.

4 de fevereiro de 2012


Are the feelings within your dreams or the darkest ones, trapped inside the deepest part of your mind, any less true, any less real?

14 de janeiro de 2012

A Question of Lust

You know, that feeling, you can't control. That talk that makes you speechless, that thrill to get there fast. Your heart beating faster, the chills on the back of your spine, the rub of you sweaty hands. The fear that the feeling vanishes. Somethings you will never be able to understand, how it works, how it appears and it sticks around forever.